A tecnologia abre novas possibilidades para a educação. Mas coloca também perguntas que não podemos adiar: como preservar a curiosidade, o pensamento crítico e a dimensão humana da aprendizagem num mundo em rápida transformação?
Nas suas instalações, na Estrela, a 12 de fevereiro, o ISEG organizou, em parceria com o Lar da Criança, a sessão "Educar 2040 | O que fica, o que muda, o que importa", um evento sobre o futuro da educação que contou com a intervenção do Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, da diretora do Externato O Lar da Criança, e de um painel de especialistas em inteligência artificial, psiquiatria e psicologia clínica.
Marcelo Rebelo de Sousa recordou os anos que passou no Lar da Criança, onde entrou com um ano e meio, e identificou o que, mais de 70 anos depois, continua a considerar intemporal: o interclassismo, a abertura à sociedade, a formação integral e o respeito por cada aluno como pessoa única e insubstituível. "O Lar da Criança foi uma grande escola para aprender depois o caminho da vida. E foi aí que eu decidi que iria ser professor."
Rita Ávila de Melo, diretora da escola, lançou o desafio central da sessão: quanto maior o avanço tecnológico, maior tem de ser o investimento nas competências humanas. "A escola precisa de ser, mais do que nunca, um espaço onde se aprende a pensar, onde se desenvolve o espírito crítico, onde se questiona e se decide com consciência." Antes de dar início ao painel, mostrou um vídeo com as respostas dos alunos do Lar da Criança à pergunta: como imaginas a tua escola em 2040? A resposta que mais ficou na sala foi de uma criança: "os robôs não dão os mimos que uma professora dá."
No painel moderado pela jornalista Catarina Marques da SIC, quatro especialistas aprofundaram o tema.
Gustavo Jesus, médico psiquiatra e diretor clínico do PIN Lisboa, sublinhou que a presença humana na sala de aula é insubstituível. "As emoções são contagiosas. Uma máquina nunca conseguirá fazer aquilo que um educador faz quando deteta subtilezas no comportamento de uma criança."
Arlindo Oliveira, professor emérito do IST e especialista em inteligência artificial, alertou para o risco de atrofia cognitiva se os jovens deixarem de escrever, argumentar e pensar por si próprios. O que espera que se mantenha em 2040? "A curiosidade. Se não houver curiosidade, não há nada."
Marta Pinto, investigadora e consultora em inteligência artificial, defendeu que a literacia digital é hoje o único consenso internacional, e que professores e alunos estão, juntos, a aprender a navegar este momento histórico. "Estamos todos a descobrir o que esta tecnologia nos traz e o que nos tira."
Marta Correia, psicóloga clínica, lembrou que o que mais nos distingue enquanto humanos não é o acesso ao conhecimento, mas a relação que temos uns com os outros. "Uma máquina não é transformada pelo encontro. Nós saímos sempre diferentes de uma conversa."
A sessão foi encerrada pelo diretor do ISEG, Professor João Duque, com uma palavra de reconhecimento pela parceria com o Lar da Criança e pela importância de pensar o futuro da educação em conjunto.